Pedro, o Bom Vilão



Annette Pehrsson 

Discutiam violentamente dentro do carro dele. Ambos ainda fardados. Ela já não era mais do que um farrapo. Pouco antes, tinha-a ameaçado, com as mãos à volta do pescoço, a dizer se quisesse matava-te assim. Quase não respirava. Sufocava. És uma atrasada mental cheia de tiques. Uma menina mimada. És uma merdas, não vales nada. Empurrou-a para fora do carro e desandou. Moravam juntos há pouco mais de dois meses e já ele, de noite, bem de noite, deitou-lhe a roupa toda janela fora, fechou-lhe a porta e disse: agora ficas aí e não me chateias mais. Era o bairro mais chique e mais isolado de Cascais. Ela olhou e só viu o escuro. Nem um bar. O telemóvel tinha ficado com ele. Nada. E  agora? Deixou-se escorregar até sentir o chão duro e chorou. Ninguém da vizinhança lhe abriria a porta. Uma da manhã e sem conhecer ninguém. Bateu à porta, ele não abriu. Começou a andar em direção ao sítio onde sabia haver um bar aberto, um sítio onde pudesse telefonar ao Pedro. Pedro, o seu melhor amigo. Ele sempre lhe dizia, estás enganada acerca desse tipo. Naquela noite dormiu em casa dele.  Nesse dia safou-se, no dia seguinte, já ele telefonava e pedia desculpa. Tinha um anel de noivado para ela. O caso deles era sério. Ambos conheciam os pais de cada um. Era sério. Foi aí que o Pedro começou a querer saber mais sobre tudo aquilo.


Ela tinha 24 anos, apaixonou-se e pensava ser feliz. Apaixonada pelo homem mais giro da Companhia, desejado por muitas. Jaime. Ela tinha conseguido e era feliz. Até que, começou aquilo. A destruição. Ela não compreendia. Um dia, durante uma troca de palavras, ele dizia que não, não é como tu dizes, és estúpida. Agarrou num cinzeiro e o cinzeiro voou e passou mesmo perto da cabeça dela. Vieram mais ofensas, mais palavras feias, terríveis. Ela já não sabia quem era. Era um farrapo. Antes, antes dele, eu era feliz e não sabia. Não sabia. Ficou grávida. Queria tanto um filho. Foi nessa altura que tudo se complicou ainda mais. Ele não queria. Disse-lhe: um filho só depois de casar, só com a mulher com quem casar e tu não és essa mulher. Ela nunca falou, ela ficou atónita, sem palavras, apenas disse: não faço um aborto. Nunca. Se não queres, eu posso tê-lo sozinha.
Foi  então que sentiu aquela cólica violenta. 

Deixei-o e corri à casa de banho. Sentei-me na sanita e imediatamente escorreu um coágulo escuro, morno, do tamanho de uma uva. 


Foi assim que ela contou ao seu melhor amigo, o Pedro. Ele ficou sem pinga de sangue. Canalha! Esse gajo é um canalha! Tiveste um aborto, não corre sangue nenhum,vais comigo já ao hospital, não é um hospital qualquer, vamos os dois, tens de ser vista por um médico. Foram. Está limpinha, óptima, pode ter os filhos que quiser. Saíram de lá os dois, abraçados. Chorou toda a noite, tens de deixar esse gajo, não vês o mal que ele te faz? Ela não via. Ele já a tinha convencido.  Aquelas "coisas" aconteciam muito a mulheres com a profissão dela. Era a despressurização, as subidas e descidas. Tudo menos ele. O anel de noivado estava lá, à espera dela. A casa também. Ele também. Ela voltou e tudo foi  mágico durante dois dias. Ela pensava, tudo mudou, ele mudou, ele ama-me, não me enganei. Quis telefonar. Ele disse: agora não. A minha mãe deve estar a chegar. Ela tentou ainda uma segunda vez. Ele agarrou e arrancou o fio, agora já não telefonas mais. Aí, bateram-se,  ele empurrou-a contra a parede e a cabeça a bater, a bater, até que ela desmaiou.

Ninguém soube como, de repente, ele saiu da vida dela. Souberam apenas que apareceu todo partido, um dia. Disse que tinha caído da escada. Muitos pensaram que as marcas eram mais de pontapés, a cara toda esmurrada, com os olhos todos negros era mais coisa de ter levado uma tareia. Nunca ninguém soube quem foi. Teve o que merecia, disseram os amigos dela. Pedro continua sendo o seu melhor amigo.

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