A Rapariga do Comboio parte 2


Podes tirar uma fotografia dos meus seios e pô-la no bolso do casaco, ou até, na cabeceira da cama onde dormes com a tua mulher, disse ela. Quando eu estava no meu sossego, veio com esta conversa torta de rapariga com ciúmes. O costume.
«Estás a dizer coisas desprovidas de sentido.»
«Então o que vais fazer em relação a isto...quero pendurar ali os meus vestidos e coisas no genero.»
«Coisas do género é melhor.» - digo eu.

Ela acha que eu acho que me importo que ela traga os vestidos, a escova de dentes e a papa do bebé (dela, claro). O bebé dela, quatro meses e a viver com a avó. Pobre da avó!

«Estás a pensar alto. Já te conheço bem...»
«Queres vir viver comigo? Diz assim: quero vir viver contigo.»

Apoio os cotovelos na mesa, e olho para ela. Olho e torno a olhar para ela: - «Queres?»
Mas não adianta, ela não fala. Pestanejo e reviro os olhos, para chamar a atenção.
Trauteio a tal canção do Chet Faker e disparo à queima-roupa:
«Quando é o teu próximo concerto?»
Ela trauteia um refrão de Gerschwin, ponho a mão na testa e suspiro - mas não adianta.

«Hoje estás muito literário, não te sabia tão literário assim.»
É uma indirecta foleira, mesmo brega, só para não responder à merda da pergunta.
«Estás a espreitar o que escrevo?»
A pergunta voa no ar, lambe a parede da sala, cai no chão, volta a voar, cai na cadeira com estrondo , acabando por se estatelar no chão. E ela, nada.

«Queres vir viver comigo?» Ah"! sim, o ponto de interrogação, é de bem, mas está completamente fora de moda. Como aquelas palavras obsoletas de certos jornalistas da TV, digo eu, como por exemplo: obviamente, obviamente repetida obviamente até à exaustão, ou outra assim no género, estás a compreender?
Ela faz que não ouve e não responde à pergunta.

Enganei-me, afinal, responde:
«Vai levar no cu.»

Agarro na sobremesa de chocolate, lambo a cobertura de chocolate, lambo e volto a lamber a colher de sobremesa, ponho a mão na testa e suspiro, volto a lamber e ela fala:
«Estás a querer mudar de conversa.»
Envio beijos pelo ar...finjo estar morto.

«Estás a escrever isto em directo? É preciso ter lata.. Estás a gastar a sobremesa do jantar.»
«Ah! Jantas comigo. Foi por isso que trouxeste a sobremesa.»
«Essa coisa que estás a escrever vai parecer uma coisa sem sentido e idiota.»
«Idiota, claro que sou. O engraçado é que sendo eu um idiota, trazes a sobremesa, fora o resto.»
«Não me lembro.»
Sei tudo sobre ti, diz ela. Isso que estás a escrever é absurdo, diz ela. Sou muito directa. Fico a saber tudo sobre um homem pela maneira como ele ma beija. Se é casado e me beija, sei coisas sobre ele que só as anteriores amantes e a mulher devem saber.

E eu: E comer, chupar  e lamber os dedos dos pés - achas que é infidelidade?
Ela canta: 

There's a boat data's leaven soon for New York
Come with me
That's Where we belong, sister!
You and me can live that high life in New York
Come with me
There we can't go wrong, sister!

Essa é gira,  ainda digo. Vais inclui-la no próximo concerto?
Respira fundo. - «A tua mulher sabe?»
Respiro fundo - «Separei-me há dois anos.»
És muito mentiroso. Vais publicar isto?
Respondo: Vou.  Antes do jornal das oito.
«Tu não regulas bem. Tinham-me avisado. Qual concerto, essa não percebo.»
Vou lançar o post. Mete uma fotografia mais tarde, faz favor. E corrige os erros.
«Não és casado?»
«Disse que não. Não minto. Não sou como tu.»

Lançado!
REMEMBER




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